Amor, engenho e arte

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Para Rosa

 

Toda arte do amor

está no engenho em descobrir

como conviver com ele.

 

Às vezes, ele é suave com a brisa da manhã outonal,

irado é outras, como tempestade tropical.

Quente é, às vezes, quanto o verão do sol nordestino,

outras é frio, tal o inverno do branco sopro polar.

 

Por vezes é tão mudo quanto a voz da solidão

e outras, algazarra de um estádio de futebol.

Alegre e colorido se põe, às vezes, flores primaveris,

outra há em que se faz luz, rumo e farol.

 

Dói, por vezes, como um profundo choro de mãe

ou é retido, guardado, contido como um caracol.

Há outras vezes que é superficial como um arrepio,

às vezes chega bem cedo, às vezes vem tardio…

 

O amor tem seu engenho:

arte e ofício de se desvendar,

disso tudo, o equilíbrio,

seu perfeito desempenho,

e, então, amar, amar, amar…

 

Janelas!Que fazer com elas?

 

DILEMAS

 

Janelas!

Que fazer com elas?

–Fechá-las ou abrí-las.

 

Em as fechando, cair-se em si mesmo

exorcizando o mundo.

Em as abrindo, esvair-se tão a esmo,

destino moribundo.

 

As portas!

Como resolvê-las?

Abrí-las ou fechá-las.

 

Em as abrindo, sair ou deixar entrar

a dor do dia sujo.

Em as fechando, encaracolar-se

e achar-se sábio caramujo.

 

As casas!

Como equacioná-las?

Refazê-las ou destelhá-las.

 

Em as destelhando, sofrer “as goteiras

de todas as misérias”.

Em as refazendo, tirar-se, dela,

o encanto, a magia, os mistérios.

 

As vidas!

Como compreendê-las?

Vive-las ou morrê-las.

 

Em as vivendo, sabê-las como morrendo

a cada giro do ponteiro.

Em as morrendo, sentí-las renascendo

tal Fênix, das cinzas viajeiro.

 

Este não é, definitivamente, um poema.

É apenas o moto-perpétuo dos dilemas.

 

 

Um pai poeta

  

Pela fresta da porta do meu quarto escuro

eu via, ainda menino, mas de espanto feito,

meu pai curvado à mesa, magro, com seu jeito

de arquitetar a métrica do verso puro.

 

Da ponta de seus dedos, sílabas floriam,

seivadas na emoção e no labor artístico,

e, leve, vinha o verso, romântico ou místico,

que importa? se com ele os sonhos persistiam?

 

Da poética operário, artífice do encanto,

ourives da palavra, lavrador de rimas…

Assim se fez meu pai, poeta em seu recanto.

 

Sangrando a humana dor de sua ausência extrema,

curvo-me, hoje, à mesa, desfeito todo espanto,

à cena antiga volto e colho este poema.

 

Jotabê Campanholi 

Bons amigos

 

Bons amigos eu tenho, desses verdadeiros,

que gargalham conosco quando o tempo é brando

e choram nossas dores e secam nosso pranto.

Ah! Tê-los, é tão bom! Mais que amigos, parceiros.

 

E bebem em nosso copo e comem nossa sobra

e sonham nossos sonhos, andam nossos passos.

Eles nos ajudam a realizar a obra

de construir caminhos, de vencer espaços…

 

Eu os tenho, pacato um, outro mais afoito,

uns bem calmos, nervoso outro e outro forte.

Alguns velhos, outros novos… pelos dezoito…

 

Eles, quando os encontro em festas de ocasião,

me dizem: “Você está novo, não fica velho!”

E eu devolvo, inconteste: “Vocês, também não!”

 

Jotabê Campanholi 

 

O trem

 

Velho trem da Sorocabana – img.digital - Celso Duarte

O TREM

Aonde viajará aquele apito do trem
da velha Sorocabana?
Longo, gemente e pontiagudo,
espetando o silêncio de veludo
da noite capivariana?

Primeiro, ao longe….
depois, varando a madeira do teto
do meu quarto de menino,
despertava meu sonho de viajar.

Onde estará o apito e sua “Maria-Fumaça”
levando e trazendo estórias?
Em que estação ela, hoje, passa?

Ela continua correndo e apitando,
vencendo curvas e pontos… sem destino…
Segue, apitando e correndo,
pelos trilhos luzentes e saudosos
na memória envelhecida do menino.

 Jotabê Campanholi 

O velho sobrado

 
Fonseca

Era um sobrado esguio,
com sua varanda pendente
de onde se via o futuro
vendo o passado e o presente.

Bem na metade do corpo,
rasgando o verniz do teto,
em caracol, ia a escada,
ao seu destino completo.

Lá dentro, dona Clarinda,
tão alva como a manhã
me oferecia, bondosa,
rubis de rosa romã.

Em uma paciente harmônica,
eu, menino, traquinava…
Ao dar vida ao velho fole
o Chico Sampaio solava.

Na memória desta aldeia,
guardados num escaninho
vivem o velho sobrado,
O Chico e o seu cavaquinho

Jotabê Campanholi     

Esse menino

 

ESSE MENINO

 Ah! Esse menino que insiste em morar em mim…
Querubim ou duende ou, sei lá, traquinas!
Lembra-me franzino, de franja, alpercatas e brim,
namorando, à noite, as luas argentinas.

Esse menino não me deixa ser triste:
casarões, canaviais, cigarras outonais.
Tudo é hoje, tudo brilha, tudo existe:
manjeronas, alfenins, lençóis e varais.

Ah! Esse menino guardando-me no tempo, assim.
Camufim dos meus mortos, todos idos… vibrações,
faz-me peregrino, memórias de porões e jardim,
tamborins, violinos, rezas, boiadas e canções.

Esse menino furta-me de ser velho:
Alfazemas, pão-de-ló, licores em cristais…
E a minha vida como um filme, no espelho,
reprisando-se a cada dia e sempre mais…

 

Amigos

Morro do Careca em Natal – Ilustração:Celso Duarte

Eles, quando os encontro em festas de ocasião,

me dizem: “Você está novo, não fica velho!”

E eu devolvo, inconteste: “Vocês, também não!”

 

Natal/1997

Ave exilada

Quero dizer que o espaço navegado,
da pele do amor à noite consumida,
é mais que morrer.
É mais que ficar – esta distância.
É mais que se ir – esta partida.

Quero dizer que, a saudade doída

do tempo dos orgasmos não contidos,

é mais que morrer.

É mais que faltar – esta ausência.

É mais que ferir – esta ferida.

 

Quero dizer que, esta tristeza

nascida em terra Normandia

é mais que morrer.

É mais que dor – esta que perdura.

é mais que amor – esta vã loucura.

 

Há uma noite estrangeira lá fora

me esperando a noite inteira,

mas eu, ave exilada, não morro

ausente da noite brasileira.

 

Caen – França/1981

PRÓLOGO: Vai meu livro, aonde o acaso guia…

jotabe

Amiga leitora, leitor amigo,
estais prontos para viajar comigo ?
Vedes que só carrego esta maleta
de palavras – bagagem de poeta.
As estórias, todos os personagens
fictícios ou reais, sons e imagens,
somente terão forma e contextura,
no ato fértil de vossa leitura.
De senha, para entrar nesta aventura:
viajar nas asas leves da palavra,
(e já que os versos ganharão sentidos
só na imaginação que os desfrute)
é mister consumí-la com brandura,
não feito quem, apenas, a deglute,
mas tal aquele que colhe sua lavra.
O poeta é só mais um pedreiro
construindo pontes, com o seu labor,
entre as suas colheitas de viajeiro
e os armazéns da alma do leitor.

Jotabe Campanholi
Março de 2008
 

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